Há uma magia simples na organização das etapas tecnológicas em algarismos seguidos de ponto zero. O ponto zero sinaliza a mudança e o recomeço. Essa álgebra simplificadora foi aplicada por Pier Luigi Sacco à evolução da cultura, na sua relação com a sociedade. Em abstrato, a cultura é individualista, asceta, e absolutamente espontânea. Mas, enquanto fenómeno também social, a cultura transforma a sociedade e, ao mesmo tempo, reflete as transformações da política, da economia, da técnica. Simplifiquemos, pois.
C

ultura 1.0

Para Sacco, a análise da cultura pode ser vista como feita de três etapas que se sucedem no tempo. Nas sociedades pré-industriais o modelo predominante, a Cultura 1.0, investe o artista ou intelectual de um relevo simbólico, apadrinhado pelos mecenas ou pela igreja, em suma, os detentores de recursos e de poder em sociedades bastante desiguais. Quem usufruía? Esses mesmos, os poderosos, ou as massas, em cerimónias públicas intermediadas pela religião e pelo poder. A proximidade da cultura dispensava prestígio e reputação, mas a cultura não era ainda um setor em si mesmo, vivia antes da vontade discricionária dos poucos poderosos e dos poucos inspirados. Alguns dos mais resilientes símbolos de produção cultural foram criados assim, e ainda hoje inspiram multidões ao turismo e à fotografia. Esta visão da produção cultural resiste, em sentido lato, no nosso tempo.

Cultura 2.0

Na fase seguinte, que podemos alcunhar de Cultura 2.0, a emergência da indústria e das sociedades de mercado, em conjunção com o avanço da democracia e do Estado moderno, angariou recursos, até aí apenas imaginados, para o seio da produção cultural. As audiências culturais alargam-se, os privilégios das classes regentes são postos em causa. A generalização da educação pública e as novas tecnologias aplicadas ao papel, ao som, à fotografia e ao cinema popularizam as encarnações da cultura, agora também como entretenimento. A rádio e a televisão multiplicam essa proximidade das massas. O poder de compra e o tempo de lazer dos trabalhadores fazem explodir uma “indústria” de entretenimento. Enquanto as audiências crescem, o número de produtores de cultura continua limitado pelos custos fixos dos novos instrumentos culturais. A cultura, agora claramente latu sensu, torna-se uma parte importante da economia.

Cultura 3.0

Finalmente, e apenas nos últimos decénios, a Cultura 3.0 entra em cena. As inovações tecnológicas expandem incrivelmente as possibilidades de fruição e de criação culturais. Todos, ou quase todos, podem transitar facilmente entre consumidores a produtores, e a noção de autoria, como a de audiência, mudam de forma dramática. A cultura torna-se um elemento quotidiano, parte da textura das sociedades e economias, afetando, simultaneamente, as ideias e os hábitos de consumo. Muitas das novas transações culturais evidenciam uma natureza não comercial, mas muitas ressuscitam o poder primordial, simbólico, das primeiras grandes trocas culturais.

E o património?

Tradicionalmente agarrado ao edificado, ao material e àquilo que o Estado está interessado em preservar e transmitir, a área do património resiste a muitas das mudanças que a transição da Cultura 1.0 para a 3.0 implicam. O diálogo com o mercado e com o mundano, a acessibilidade a novos públicos e a capacidade de refletir as interrogações rítmicas do político são hoje fundamentais para uma nova valorização do património. Uma abordagem que promova a transação e a festa, a par com a preservação. Os exemplos de inovação extraordinária abundam e a gestão do património cultural deve assumir-se como uma nova ferramenta de diálogo entre os vestígios valiosos do passado e o ritmo maravilhoso do presente. Três ponto quê?


Este artigo foi elaborado com referência a José Tavares (2014), “Cultura e Desenvolvimento: Um Guia Para os Decisores”, disponível aqui.

Publicado em 
13/2/2019
 na área de 
Setorial

Mais artigos de

Setorial

VER TODOS

Join Our Newsletter and Get the Latest
Posts to Your Inbox

No spam ever. Read our Privacy Policy
Thank you! Your submission has been received!
Oops! Something went wrong while submitting the form.