O Full Catastrophe que o Dr. Jon-Kabat Zinn (o “pai” do Mindfulness no Ocidente) tinha em mente quando escolheu o nome para o seu livro Full Catastrophe Living: Using the Wisdom of Your Body and Mind to Face Stress, Pain, and Illness (Delta, 1991), não era o COVID-19. Na verdade, era a normalidade do nosso quotidiano como seres humanos: nascimento, crescimento, relacionamentos, trabalho, mais trabalho (já mencionei trabalho?), sobrevivência, doença e a inevitável morte.
V

amos lá admitir. A vida neste planeta pode parecer uma autêntica catástrofe. E, no entanto, entre a dor da existência humana encontram-se jóias ocultas de bem-estar: Momentos de pura felicidade. Os olhos de uma criança quando ri. O som da voz de um ente querido. O cheiro da comida da nossa mãe. A suavidade da pele de um bebé. E sim, existem falsificações desses Momentos de pura felicidade. Há uma onda de “produtos químicos que o nosso corpo produz” para sentirmos prazer quando recebemos um elogio, compramos aqueles “sapatos-lindos-da-moda-e-em-saldos!” ou conseguimos mais um “like” no nosso post embelezado. Qual a diferença entre o que a realidade e uma falsificação? A primeira leva à liberdade. A segunda ao vício e à escravidão emocional.

E depois há o COVID-19. Apareceu do nada como um intruso durante a noite. Sem aviso prévio. Sacudindo a nossa “normalidade”. Forçando dezenas de milhares de pessoas a estarem confinadas em casa, e ao medo de milhões de uma possível infeção, à beira do pânico.

O Mindfulness pode ajudar-nos a enfrentar estes tempos difíceis?

Diga-me o leitor após a leitura deste artigo (e obrigada por me acompanhar durante algumas análises mais nerd até agora).

Mas afinal o que é o Mindfulness?

O Mindfulness é definido frequentemente (segundo o Dr. John Kabat-Zin) como "a consciência que surge ao prestar, deliberadamente, atenção à situação atual, sem julgamento". O conceito tem origem em Vipassana, uma técnica de meditação ensinada pela primeira vez por Buda, que enfatiza a Consciência e a Equanimidade como um meio de desenvolver a Sabedoria (através da compreensão da lei da impermanência) e, assim, eliminar o sofrimento. A maioria das tradições espirituais enfatiza conceitos semelhantes: desde os primeiros pais e mães cristãos contemplativos do deserto, a dança consciente dos sufis, até os rituais disciplinados no Corão. A mentalidade resultante é encontrar felicidade em momentos não contaminados pelos nossos desejos e aversões. A gratidão segue rapidamente. E mesmo em casos de grande dor, o sofrimento mental, que geralmente acompanha e aumenta essa dor, é bastante reduzido ou mesmo totalmente dissipado.

O que foi provado sobre os benefícios do Mindfulness?

As investigações científicas sobre o impacto do Mindfulness carecem de rigor. Desde estudos mal estruturados (sem grupos de controlo ou com práticas organizadas precipitadamente, como uma única meditação de 15 minutos, por exemplo) a investigadores bem-intencionados que não praticam eles mesmos, menos de 1% da pesquisa publicada atinge o padrão de excelência da investigação médica. No entanto, várias conclusões podem ser formuladas com segurança. Foi comprovado cientificamente que a prática regular de Mindfulness traz benefícios em vários níveis, nomeadamente:

  • maior capacidade de foco;
  • melhoria na capacidade de memória;
  • capacidade de ficar mais calmo sob stress e metaconsciência;
  • "boa cidadania corporativa".


Como é que tudo isto está relacionado com o COVID-19?

A autora sugere que enfrentar as implicações do COVID-19, no nosso quotidiano, pode ser aprimorado através da melhor metodologia comprovada, de resolução de problemas até ao momento: a mesma de consultoria estratégica (sabem o que dizem: “uma vez consultor, sempre um consultor”). Portanto, se (como a autora) está confinado em casa, não sabe ao certo a duração da quarentena e quer saber como continuar a criar valor para a sua instituição empregadora e a sociedade, enquanto sobrevive às brincadeiras barulhentas do seu filho e preserva a sanidade restante do seu casamento... aqui está uma metodologia de resolução de problemas com três etapas que poderá ser útil:

Etapa (i) “Enquadramento e análise do problema”: isto "são palavras caras" para o que costumamos chamar de “mas o que é que se passa aqui?”. Num contexto de COVID-19 são muitos os benefícios de focar a nossa mente (também conhecido como “pensamento convergente”) em entender quais são os problemas reais que estamos a enfrentar, colocando poderosas perguntas MECE (Mutuamente Exclusivas e Coletivamente Exaustivas, expressão nerd para: ser organizado no seu pensamento), como:

  • Já estamos infetados? Em caso afirmativo, como podemos curar-nos sem contaminar mais ninguém? Caso contrário, como podemos reduzir a probabilidade de sermos infetados, ao mesmo tempo que cuidamos daqueles que moram connosco?
  • Que tipo de trabalho remoto podemos fazer? Quais seriam as melhores condições para isso? Que ajustes podemos fazer a partir de agora?
  • Como podemos aproveitar ao máximo o nosso “retiro forçado” para os relacionamentos com aqueles com quem vivemos? E para o relacionamento connosco próprios?

Etapa ii) “Geração de ideias / hipóteses para soluções”: é aqui que a criatividade entra em ação para descobrir ideias que podem não ser tão óbvias, mas que têm um grande impacto. Com o COVID-19, a criatividade para encontrar soluções dentro de quatro paredes é fundamental, por exemplo, para cada uma das perguntas acima mencionadas, respetivamente:

  • Fortalecer o sistema imunitário com uma dieta saudável e criativa, exercícios regulares e uma visão geral de confiança (a relação entre o medo e um sistema imunitário enfraquecido foi já demonstrada cientificamente) é fundamental;
  • Encontrar soluções criativas para os desafios do trabalho remoto "forçado" é essencial: a autora encontra-se num mar de plataformas remotas de aprendizagem, imaginando como as aulas mais interativas podem ocorrer sem ver os alunos e já está a sentir-se nostálgica com as tardes de sexta-feira na companhia dos "seus" mais de 60 alunos da geração Z. Até o multitasking e o olhar permanente para os telefones são relembrados com nostalgia;
  • Uma das amigas da autora começou a filmar uma série de "espetáculos de dança" com o marido e as duas filhas. E diz que “foi uma bênção inesperada poder partilhar tanto tempo "sem nada para fazer" com a minha família"

Etapa iii) Buy-in e implementação de soluções”: é aqui que começa a ficar mais desafiante! Fazer acontecer. Passar das ideias à ação. Com o COVID-19, isso pode significar:

  • Cozinhar refeições saudáveis e definir um horário para uma prática diária de yoga (todos os dias mesmo);
  • Contactar a empresa de telecomunicações para aumentar a velocidade do Wi-Fi, de forma a garantir maior qualidade de vídeo (e contactá-los, novamente, quando não aparecerem);
  • Conversas corajosas com aqueles com quem vivemos. Começando por agradecer a presença deles nas nossas vidas, e avançando para solicitar a sua ajuda para tornar este momento juntos mais produtivo.

E como pode o Mindfulness apoiar este processo de resolução de problemas?

A pesquisa científica sobre o impacto do Mindfulness na resolução de problemas é tanto incipiente quanto promissora. Beth Rieken et all (HBR, 2019) prova como o Mindfulness (particularmente a qualidade da atenção consciente: aberta, curiosa e gentil) é um forte indicador da capacidade de inovação na resolução de problemas. A própria pesquisa da autora (Ph.D. Proposal, Buckingham University, 2020) está a testar a hipótese de que os benefícios da prática regular de Mindfulness (num período de 13 semanas) melhora os componentes da resolução de problemas, a saber:

Etapa (i) “Enquadramento e análise do problema”: requer atenção, foco e memória;

Etapa (ii) “Geração de ideias / hipóteses para soluções”: requer criatividade, que é aprimorada, com uma maior calma sob sob stress e metaconsciência;

Etapa (iii) Buy-in e implementação de soluções”: requer empatia e compaixão (os traços visíveis da “boa cidadania corporativa”).

Agora diga-me. O Mindfulness pode ajudar-nos a enfrentar estes tempos conturbados? A resposta, inequívoca, da autora é: Sim, pode. Podemos então perguntar "Porquê" e "Como", as perguntas adicionais que este breve artigo responde. Se está convencido de que sim, convido-o a começar a praticar 10 minutos todos os dias. Espero que goste e que considere útil a prática de 10 minutos de meditação diária neste áudio que gravei e que pode encontrar neste LINK (o áudio encontra-se disponível exclusivamente em inglês).

 

Notas da autora:

Este breve artigo responde às perguntas levantadas pela autora com base em dados secundários (a pesquisa científica mais válida existente até o momento) e primários (a própria experiência da autora com Mindfulness, nos últimos 20 anos, num total estimado de 10.100 horas de meditação) e em Consultoria Estratégica para resolução de problemas (nos últimos 25 anos). Além disso, a autora aponta para outras pesquisas relevantes.

Publicado em 
19/3/2020
 na área de 
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