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Uma ilha de plástico e hábitos que não voltam atrás... ou será que voltam?

6 de Novembro de 2018 por Luís Veiga Martins

As evidências de um crescente problema, que insistíamos em ignorar, levaram a que em 18 meses fossem tomadas medidas e diversas iniciativas que começam a alterar o status quo: refiro-me ao lixo marinho.

Artigo de Luís Veiga Martins | Leitura de 4 minutos

Blog - Uma ilha de plástico e hábitos que não voltam atrás... ou será que voltam?

A ilha de plástico

Há muitos anos que se fala da famosa ilha de plástico que é nada mais, nada menos do que uma grande concentração de plásticos no Oceano Pacífico com uma área equivalente ao Estado americano do Texas e três vezes a área da França. Para que tenhamos uma ordem de quantidade, são cerca de 80.000 toneladas, o equivalente a cerca de 290 Airbus A380. Porém, esta não é a única concentração de plástico nos oceanos. Existem outras 4 áreas, de menor dimensão.

De acordo com um estudo publicado em 2017, atualmente, os resíduos de plástico provêm maioritariamente de 10 rios: 8 na Ásia e 2 no continente africano. No entanto, as restantes regiões do planeta não podem de forma alguma ficar tranquilas e inativas, pois mesmo que hoje o seu contributo não seja tão significativo, há uns anos, seguramente, contribuíram de sobremaneira. Assim, existe no oceano um stock acumulado proveniente das restantes regiões, especialmente da Europa.

Impacto

Para além do impacto ambiental, o lixo marinho impacta em algo que não é ainda amplamente reconhecido pelo público. Refiro-me aos microplásticos, que são partículas com menos de cinco milímetros de tamanho que se deterioram a partir de peças de plástico maiores perdidas nos oceanos, entrando na cadeia alimentar humana.

Consciente da necessidade de uma tomada de posição urgente contribuindo igualmente para o ODS 14 - conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável - demonstrativo de uma louvável vontade política, a Europa e os diversos Estados membros tomaram, mais uma vez, a dianteira e desencadearam nos últimos tempos um conjunto de iniciativas: vejamos o que em 18 meses aconteceu.

Último ano e meio

A Comissão Europeia, logo no início deste ano, definiu as metas do Pacote Europeu para a Economia Circular, que irão contribuir de sobremaneira para que um cada vez maior número de resíduos de embalagens de plástico seja valorizado através da reciclagem e seja não só criada riqueza e emprego, mas também minimizados os impactos ambientais associados. Na mesma altura, é sinalizado que, ainda antes do Verão, seriam apresentadas propostas para banir determinados utensílios de plástico descartáveis muito associados ao flagelo que é o lixo marinho, tendo por base factos e não crenças ou mitos. E isto aconteceu também!

Algumas empresas multinacionais e nacionais (distribuição, produtos de grande consumo, bebidas, grande restauração, hotelaria) anunciaram que, a partir do 2º semestre do ano passado e mais intensamente a partir do início do corrente ano, iam eliminar determinados utensílios de plástico descartável e/ou minimizar a utilização de determinadas embalagens de plástico, ou até mesmo atuar a um nível mais alargado com outros objetos, como sejam os copos de café.

O Parlamento Português começou a discutir a possibilidade de vir a ser implementado um sistema de depósito obrigatório para embalagens de bebidas de tara perdida que, apesar do investimento significativo associado, irá permitir alcançar taxas de reciclagem extremamente significativas, como já acontece em vários países do centro e norte da Europa. Há municípios que pretendem alterar os seus regulamentos municipais com vista à proibição de alguns utensílios descartáveis, como os copos de plástico; cadeias de retalho que querem promover projetos piloto para premiar o consumidor pela entrega dos seus resíduos; e empresas de bebidas que pretendem promover a utilização de copos reutilizáveis.

Neste contexto, as decisões tomadas na 2ª quinzena de outubro passado demonstram que não estamos perante intenções, mas concretizações.

2ª quinzena de outubro de 2018

O Parlamento Europeu aprovou por larga maioria, entre outras medidas, a proibição da venda de alguns produtos de plástico de utilização única a partir de 2021, bem como definiu como objetivo uma taxa de reciclagem para as garrafas de plástico descartáveis de pelo menos 90% até 2025. Em Portugal, foi aprovado um projeto de lei que define que a partir de 1 de janeiro de 2022 é obrigatória a existência de um sistema de depósito de embalagens de bebidas de plástico, vidro e metal. O Governo decidiu ainda proibir garrafas, sacos e louça de plástico na administração pública.

Uma onda que segue em frente (voltando atrás)

Estamos perante uma onda que se irá manter e que terá tendência a ser cada vez maior. E dado tratar-se de lixo marinho, a imagem, a meu ver, é a apropriada. Uma onda que vai levar a que nada seja como dantes. Mas será mesmo assim?

Será que não estamos perante, como diz a canção, “ao tempo volta para trás” em muitos dos hábitos e práticas do passado? Ao tempo do vasilhame nas bebidas, do carrinho das compras com a colocação dos produtos sem saco de plástico, com a utilização de embalagens reutilizáveis, entre outros tantos exemplos.

Novos (“velhos”) tempos virão trazer grandes desafios para as empresas, apelando mais uma vez à sua criatividade e inovação para fazer face a uma nova realidade e a uma crescente exigência e escrutínio por parte dos consumidores europeus. E o desejo é que esta onda se alastre a outras geografias para que tenhamos um mundo mais sustentável e equilibrado.

Tópicos: Artigos de Opinião, Sustentabilidade

Luís Veiga Martins

Publicado por: Luís Veiga Martins

Licenciado em Economia pela Católica Lisbon e com MBA com Especialização em Marketing pela Católica Lisbon. É Chief Sustainability Officer da Nova SBE bem como Diretor Geral da CELPA – Associação da Indústria Papeleira desenvolvendo também a sua atividade profissional de consultoria externa na área da Sustentabilidade, Economia Circular e Gestão de Stakeholders, quer para entidades públicas como privadas em Portugal e no estrangeiro.