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Quem come as nossas migalhas digitais?

26 de Abril de 2019 por Joana Gonçalves de Sá

Ao fazer compras online ou a pôr um “like” no Facebook expomos a nossa identidade e privacidade a uma reserva gigantesca de dados. Sim, há aí um enorme potencial para a humanidade. Mas há também uma série de ameaças para as quais temos de estar atentos. Primeiro de uma série de dez textos sobre os riscos da “Revolução Digital”.

Artigo de Joana Gonçalves de Sá | Leitura de 5 minutos

Blog - Quem come as nossas migalhas digitais?unsplash-logoMattias Diesel

Vou com a minha filha ao cinema. Um pai sentado à nossa frente mexe no telefone, distraidamente, enquanto o filho de cinco anos tenta interagir. A sessão começa, pedem que desliguemos os telemóveis. Este pai continua ligado e durante os 45 minutos da sessão não levanta os olhos do pequenino ecrã, ignorando o muito grande lá ao fundo. Lê notícias sobre futebol, espreita o Facebook e o Instagram. Como qualquer outro vício, este dá muito dinheiro a ganhar e eu penso em quão valioso este pai é, provavelmente sem o saber.

Perto de 70% da população portuguesa tem acesso à Internet e muitos fazem-no através dos seus telemóveis. Estes "smartphones” ajudam-nos a acordar e a avisar os nossos filhos de que vamos chegar exatamente 17 minutos atrasados porque há um acidente a dois quilómetros. Contam quantos passos demos, percebem a nossa voz, guardam as fotos de família e lembram-nos para enviar um email de parabéns. Relógio, despertador, gravador, agenda, máquina fotográfica, mapa, banco, serviço de táxi, bloco de notas, tudo no meu bolso.

Isto é possível porque estes telefones pequeninos estão cheios de sensores e têm mais capacidade e memória do que as máquinas que nos levaram à Lua. Eles guardam milhões e milhões de “microdados” que são depois enviados para outros. Dados sobre os nossos passos e sobre o nosso comportamento, migalhas digitais que deixamos de cada vez que estamos online. É graças a estas migalhas, que partilhamos livremente, que o Google Maps me indica o trajeto mais rápido até casa. É também graças a elas que podemos começar a pensar em desenhar cidades mais inteligentes, mais eficientes, mais seguras.

São muitos os textos e programas que descrevem os benefícios e as promessas da chamada “Revolução Digital”. Mas há normalmente uma face negra nas revoluções e esta certamente não foge à regra. Se sistemas de reconhecimento facial podem permitir que cheguemos ao avião mais rapidamente, também facilitam o controlo de cidadãos. Se os cartões de pontos do supermercado nos fazem poupar no carrinho, também nos tornam mais suscetíveis à manipulação.

Infelizmente, este lado menos positivo é tipicamente menosprezado ou por vezes até ignorado pelos especialistas. São necessários escândalos de grandes proporções, como o da empresa Cambridge Analytica, acusada de utilizar o Facebook para influenciar eleições, para que os perigos da nossa atividade online sejam discutidos publicamente. Isto não é novo na história: não sabemos o futuro e tendemos a remediar mais do que a prevenir.

Pensemos, por exemplo, na Revolução Industrial. Seria dramático ter de regressar a um período sem telecomunicações, rede rápida de transportes, ou a produção mecanizada que temos hoje. Mas este crescimento trouxe também exploração do trabalho e poluição a níveis nunca antes imaginados. Este choque foi sendo atenuado através de legislação, mas foram precisas décadas e a morte de muitas crianças até aparecerem leis de regulação de trabalho infantil. E passaram quase dois séculos até este ser verdadeiramente proibido na Europa.

É interessante ler alguns dos argumentos contra esta legislação, dados na altura pelos donos das grandes empresas: os adultos não cabem nos túneis das minas; adaptar todas as máquinas da fábrica a mãos grandes levará o próprio país à falência; é a única forma de garantir que as crianças não morrem de fome. Quase 200 anos mais tarde, continuamos a ouvir argumentos de teor muito semelhante, mas agora dos grandes monopólios digitais, como a Apple, o Facebook ou a Google: fazemos mais bem que mal; comer estas migalhas sem pagar é a única forma de funcionar; é impossível sobreviver sem nós. É a resistência de empresas que conhecem múltiplos aspetos da nossa vida e que têm mais valor do que muitos países, sendo já verdadeiros líderes mundiais, não eleitos.

Os outros líderes, os políticos, também já perceberam o potencial da inteligência artificial (IA). Segundo Vladimir Putin: “A IA é o futuro, não só para a Rússia mas para toda a Humanidade (...). Quem se tornar líder nesta esfera, mandará no mundo”. A China espera ser esse líder antes de 2030, estando já a desenhar experiências sociais de larga escala, que envolvem classificar os cidadãos de acordo com o seu comportamento social, só possível graças a tecnologias de reconhecimento facial, vendidas em parte pela Microsoft. Não é por acaso que se ouvem tantas referências ao 1984 do Orwell, mas claro que há diferenças. Uma delas é que os mecanismos de vigilância são comprados por nós, que voluntariamente os levamos para todo o lado.

Isto significa que devemos desligar os nossos telefones, computadores e tablets? Certamente que não, até porque isso não nos garante proteção. Por exemplo, os dados que fornecemos na nossa página do Facebook são suficientes para ser possível extrapolar sobre os gostos e preferências de amigos que nem sequer fazem parte desta rede social. Mas, mais importante ainda, estas tecnologias e conhecimento resultam de um acumular de milénios de evolução humana e, tal como as trazidas pela Revolução Industrial, podem e devem ser usadas para melhorar as nossas vidas. Mas vai ser preciso tomar decisões difíceis e precisamos de estar informados, se queremos fazer as escolhas certas.

10 meses e 10 artigos do grupo de investigação em Data Science and Policy da Nova SBE

Ao longo dos próximos meses iremos descrever e discutir alguns dos possíveis lados negros desta revolução. Começamos por explicar os chamados sistemas de recomendação (ou para que servem os pontos do supermercado) e discutir como a legislação atual (não) nos protege. Nos meses seguintes vamos perceber se devemos ou não tapar a câmara do telefone, os riscos das apps de saúde e como identificar fake news. Contamos oferecer informação e indicações práticas, mas também abordar questões de princípio e valores que nos ajudem a pensar no mundo não como existe hoje, mas como gostaríamos que viesse a ser. Porque o futuro se decide agora. 

Na próximo mês: “Diz-me o que fazes, dir-te-ei quem és"
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Artigo publicado originalmente no Jornal Público

Tópicos: Artigos de Opinião, Digital & IT

Joana Gonçalves de Sá

Publicado por: Joana Gonçalves de Sá

Associate Professor @ Nova SBE

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