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Antes de embarcar na redação de uma constituição familiar

28 de Janeiro de 2020 por Christine Blondel

Com o recente foco nas constituições familiares (também conhecidas como “atas constitutivas” ou “protocolos”), algumas empresas familiares acham que esta é a fórmula mágica que os ajudará a permanecer juntos, para sempre, nos negócios não importa o quê.

Artigo de Christine Blondel | Leitura de  2 minutos

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Certamente, as constituições familiares podem ser muito úteis e proporcionam uma minimização de conflitos, explicitando o implícito e estabelecendo regras. Porém, se as famílias não debaterem as questões principais, durante o processo de desenvolvimento, todo o exercício pode demonstrar-se inútil.

Vejamos, por exemplo, uma família que nos contactou porque uma nova geração de primos era atualmente líder e proprietária da empresa; os líderes da família queriam convidar os seus primos para redigir os seus valores. O exercício deveria ser o "ato fundador" da sua geração e, provavelmente, um elemento-chave de uma futura constituição familiar. Ao ouvir os líderes, ficou claro que nunca se falou das tensões familiares. Portanto, em vez de se concentrarem na reunião familiar para redigir os valores, concordaram em falar abertamente e perguntar: "Quais as questões que devem ser trabalhadas?" Usando métodos participativos, cada pessoa listou as suas ideias, que foram, posteriormente, partilhadas e agrupadas por tema. Foram identificadas diversas questões: a comunicação (típica da maioria das famílias), o papel das mulheres (idem!), governace, a próxima geração, etc. Os valores eram um tópico, porém, certamente, não o mais urgente: o mais inadiável era a comunicação e as frustrações das mulheres da família que não foram tratadas como os seus irmãos.

Também vimos várias famílias, de menor extensão (primeira e segunda geração) em que o pai pressionou os filhos a redigir uma constituição. Um exemplo, ele queria modelos das constituições de outras famílias para, rapidamente, duplicar o que lhes convinha. Num outro exemplo, um pai sugeriu que cada uma das crianças redigisse um capítulo e reunissem tudo. Nenhuma dessas abordagens funcionou, porque privaram os filhos de qualquer comunicação autêntica sobre as suas experiências passadas, conflitos na infância e no trabalho e sonhos para o futuro.

Quando uma família diz: “Precisamos de uma constituição familiar”, está pronta para trabalhar em novas dinâmicas, geralmente uma mudança de gerações.

Uma constituição familiar é útil quando finalizada e acordada: formaliza acordos e serve como referência para decisões e dilemas futuros. Mas é, também, útil antes de ser redigida: o projeto reúne todos os membros da família, que trabalham ou não no negócio. É uma oportunidade de comunicação sobre todo um conjunto de questões importantes. Numa família com a qual trabalhamos recentemente, a constituição permitiu que esta trabalhasse na sua história, visão e valores, regras de emprego de membros da família, governance, planos de liquidez - e reuniu membros da família que não viam há anos!

Contudo, uma constituição familiar não tem a capacidade de, milagrosamente, resolver todos os problemas. Estes só serão resolvidos graças aos debates/às reuniões, por vezes difíceis, que a família mantém. É importante salientar que estes(as) aprimoram as capacidades e aptidões de comunicação de uma família para, no futuro, conseguir resolver novos conflitos. Trata-se de uma situação win-win: os princípios estabelecidos na constituição, somados a uma maior capacidade de comunicação de uma família, reforçam-se mutuamente para tratar de possíveis conflitos futuros.

Este blog foi originalmente escrito por Christine Blondel para a KPMG

Gestão de Empresas Familiares

Tópicos: Artigos de Opinião, Setorial

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Publicado por: Christine Blondel

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